Uma coisa de cada vez

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Sim. Eu perdi meu carro, de um jeito bem perdido mesmo, de um jeito desses de precisar pegar um táxi para encontrá-lo. Isso mesmo, pegar um táxi para encontrá-lo. Porque andei tanto que cansei. E como tudo na vida tem seu lado bom conheci o Sr. Agnaldo que ao ver o meu sinal parou. Entrei no carro brancoCumprimentei-o e perguntei qual o seu nome. Simpaticamente respondeu “Agnaldo”. Eu, com vergonha na caradisse que não sabia para onde iríamos. Ele então perguntou se era para andar sem destino. Eu disse que sim, mas não exatamente isso. E então expliquei que ali por perto estava meu carro, mas que eu não sabia aonde e que eu já havia andado meia hora à procura e que encarecidamente pedia a sua ajuda. O  Sr. Agnaldo me fez diversas perguntas a respeito de todo o meu caminho até eu estar no lugar que nos encontrávamos. E então me disse:

Ele – Vou ser o seu detetive hoje.
Eu – Ah Sr. Agnaldo! Era isso que eu precisava ouvir… O senhor será meu detetive e agora sim o meu terapeuta vai acreditar que eu tenho déficit de atenção.
Ele – Que você tem o que?
Eu – Que eu tenho dificuldade de prestar atenção em algumas coisas nessa vida.
Ele – Quantos anos você tem?
Eu – 29.
Ele – Minha filha é muito cedo para esquecer as coisas! É a primeira vez que isso acontece?
Eu – Olha, de esquecer aonde estacionei o carro, assim, sem ser no estacionamento do shopping, sabe? E considerando que esquecer no shopping seria algo normal, é sim, é a primeira vez sim.
Ele – Mas me diz uma coisa, assim, a gente pensa muito, né?
Eu – Olha, sem dúvida eu tenho que te dizer que sim e mil vezes sim, eu penso demais…
Ele – Sabe que umas pessoas pensam mais do que outras, né?
Silêncio…
Ele  Em qual lugar estava sua cabeça quando você estacionou o seu carro?
Eu  Sr. Agnaldo, essa é uma boa pergunta. Sabe, ando querendo mudar algumas coisas no mundo. Numa dessas, mil possibilidades fervilham minha cabeça com muitas ideias. Fora essas ideias o waze parou de funcionar no meio do caminho. Então, pouco depois, parei o carro achando que eu estava bem perto do meu destino. Antes disso, no meio do caminho, li um email que me avisava que eu teria que pagar $500 da reserva do hotel que fiz, só que eu não fiz a viagem e simplesmente esqueci de cancelar o hotel. Então $500 do meu suor de trabalho no lixo me deu desespero. Depois disso eu saí do carro numa ligação importante e a cada dez minutos que eu andava eu parava e perguntava a direção do meu destino. Fiz isso três vezes. Cheguei ao local que deveria chegar, sem me dar conta, naquele momento, de que havia andado meia hora. Então desliguei o celular e eu queria: 1) verificar se eu tinha mesmo que pagar os $500; 2) nas folhas que eu tinha que imprimir e que eu precisaria delas no final do dia; 3) na entrevista importante de um projeto de trabalho que era o meu próximo compromisso…
Ele – Minha filha, o que você tem se chama “pensar demais em tudo junto ao mesmo tempo e misturado”.  Não é isso que você falou aí de atenção. Se for isso que seu terapeuta falou que você não tem, você não tem mesmo. Tem é que ver que toda essa energia ai precisa de uma direção só. Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez…Respira… Uma coisa de cada vez. Respira... E só uma coisa de cada vez.

Fiquei em silêncio e comecei a olhar mais atentamente ao redor. Então fui lembrando do meu caminho até estacionar o carro e, finalmente, direcionando o taxista até o meu carro antes desencontrado.

Ele – Cuida do pensamento. E se conseguir não pagar os $500, dá três pulinhos pra São “Longuinho”, me livrei de poucas e boas só com três pulinhos. A gente tem que prometer o que dá pra cumprir, não é?

Eu – Rsrsrs… 

Agradeci pela ajuda e pela corrida. E disse:

Eu – Sr. Agnaldo, obrigada pela compreensão e por ser meu detetive hoje. Achei que qualquer taxista se negaria a andar sem destino em busca de um carro perdido. Espero que pelo menos o senhor tenha se divertido.  Vai me dizer que já teve corrida mais divertida do que essa?

Ele – Olha, não tive não minha filha, já faz doze anos que estou correndo e nunca tive corrida com tanto bom humorE tem coisa melhor do que diversão? É bom rir das tragédias um pouco e encontrar sentido nelas, afinal ninguém perde o carro todo dia por aí, né? E lembre-se, uma coisa de cada vez. Uma coisa de cada vez... Uma coisa de cada vez.

Eu – Uma coisa de cada vez… Respira… uma coisa de cada vez… Respira…

 

 

 

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