O presente e a presença

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Luiza faria 12 anos em breve. A mãe, Joana, perguntou o que ela queria de presente. A resposta foi: quero surpresa! Mas “surpresa?”. Há anos Joana comprava o que a filha escolhia. Natal, Dia das Crianças, aniversários, uma passadinha rápida no shopping, passeios com a avó. Há anos que Luiza escolhia os presentes.

Mas é presente ou é encomenda?

Joana pensou, pensou, pensou. Joana adorava ganhar e dar presentes, especialmente aqueles não em razão de uma data festiva ou por uma causa que o mundo inventa, mas aqueles que chegam pelo acaso das relações, sem razão concreta, mas pela conexão, aquele que vem porque vem de nós. Porque presente que é presente mesmo é a presença da relação, viva.

O fato é que a filha tinha de tudo. Joana ficou perdida. Se a filha tinha de tudo pensou que então deveria dar é nada. Nada de presente. Mas em um mundo cheio de tantas coisas, o último isso, o mais novo aquilo, onde encontrar nada?

Joana passou a reparar que sempre ouvia que não tinha nada em lugar nenhum, “não tem nada para ver na TV”, dizia o marido, “não vai doer nada”, dizem as pessoas, quando na verdade dói muito, “não tem nada para fazer aqui em casa”, muitas vezes dizia Luiza. E Joana sabia que esses nadas eram cheios de tudo. Ela mesma se pegou dizendo muitas e muitas vezes “não tem nada nesse armário” no meio de muitas e muitas roupas ou dizendo “não precisa se preocupar com nada”, quando na verdade precisava de ajuda.

Joana pegou uma caixa vazia. Trocou por uma caixa ainda maior, uma caixa bem grande, quase do tamanho da filha. Fez um laço bem bonito. No dia do aniversário lá foi ela, com a surpresa, com caixa, laço e tudo – ou nada. Luiza viu a caixa e logo disse:

– A minha surpresa! Mãe, que caixa grande!

– Feliz aniversário, minha filha!

– Luiza então abriu a caixa.

– Mãe, acho que você se enganou, está vazia.

– Não está vazia filha. Tem nada.

– Como assim? Nada de presente?

      – Isso, nada, só você e eu!

Luiza e Joana ficaram juntas aproveitando o nada. E o tudo. A caixa vazia? Passou a guardar coisas especiais da vida de Luiza.

Inspiração:

The gift of nothing, Patrick McDonnell

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