A volta do segundo laço

O trabalho do psicólogo clínico na orientação parental e terapia infantil: vamos ler um livro?
03/04/2019

João estava completando seis anos de idade e Fernanda havia começado a ensinar o filho a amarrar o cadarço do tênis.

Ela não estava “firme” nesse aprendizado e o que mais temia era sobre o que já tinha escutado de outras mães, a tal da volta do segundo laço. A avó do João, sabendo da dificuldade do neto, comprou um presente para ele: um tênis de velcro. Pronto, tudo resolvido. Na verdade quase tudo resolvido, Fernanda estava com uma sensação dúbia. Aliviada pelo fim do processo do tênis que mal tinha começado, mas ao mesmo tempo sentia que algo ali não estava certo.
– Fernanda, você consegue prestar atenção na sua sensação e me descrever o que te incomoda neste processo?

– Eu fico nervosa e me percebo impaciente com ele. A rotina é muito puxada e não dou conta de esperar o João amarrar o tênis. E logo pela manhã menos ainda! O tempo é cronometrado. A gente vai se atrasar! Eu já sei que ele vai demorar, então eu mesma amarro. E agora com o tênis de velcro tudo se resolveu. Ele coloca sozinho, nem preciso amarrar nada.

– E o João gostou do presente que ganhou?

– Hum… boa pergunta, não sei… não me lembro, acho que sim. Mas sabe, acho que gostou não porque ele não quer aprender a amarrar o tênis, mas porque o tênis de velcro fez com que ele se livrasse de mim… fez com que ele se livrasse do jeito que eu estou ensinando ele a amarrar o tênis…

– Hum… interessante sua percepção.

– Bia, olha só o que acabei de dizer. Estou dizendo que não tenho o tempo que meu filho precisa. É isso que estou dizendo.

– Que bonito você conseguir perceber e também dizer isso. Entendo que você também está dizendo que a sua mãe deu um presente para você e não para o João, bem como a dificuldade dele de amarrar o tênis é sua e não do João. Fernanda, crescer é um processo que precisa de tempo, amor, paciência e isso não quer dizer que o crescer do João não possa ter um equilíbrio dentro da sua rotina puxada, não é mesmo? Qual momento do dia que o treinar amarrar o tênis poderia não tomar muito do seu tempo?

– No final de semana eu consigo. Eu tentei fazer isso um ou outro final de semana, mas desisti logo, outras coisas passam como um trator e isso não ficou como prioridade.

– Então vamos reservar um tempo para isso todo final de semana?

– Sim! E quando a gente chega da escola em alguns dias ficamos conversando, também podemos treinar uns minutinhos.

– Olha só! Excelente!

– Sabe, algumas mães me falaram que a volta do segundo laço é muito complicada. Acho que eu nem quis começar de verdade a ensinar a amarrar o cadarço por medo de algo que eu nem sei direito o que é. Um cadarço não pode ser tão assustador, né?

– Fernanda, não é o cadarço. A questão é você. A rotina é puxada, mas se não houver conexão das suas necessidades com as necessidades do João ele vai deixar de aprender a amarrar muitos e muitos cadarços. E tudo bem enquanto ele está aprendendo você amarrar para ele ou, usar o tênis de velcro pela manhã para ir para a escola. Mas se você quer dar para o João o tempo dele de aprendizagem ele precisa mais do seu tempo. Exige sacrifício, mas não precisa ser de um jeito que deixe sua rotina ainda mais puxada. Pode ter mais leveza. E pode acontecer com equilíbrio.

– Crescer no tempo dele, né? É isso… ele precisa de mim.

– Sim! Ele precisa do seu tempo. E você precisa do tempo dele.

 

 

 

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