A casa de dentro
The house from within

Como desenvolver as habilidades relacionais nas crianças?
22/08/2017
No meio do caminho…
01/01/2018

Na primeira semana da vida longe de casa estavam os pequenos macaquinhos a me conhecer com aquela curiosidade gostosa de criança. E logo nos primeiros dias um “Starling” docemente me pergunta:
Ela – Ibu Bia, aonde é a sua casa?
Em um momento que eu estava a me encontrar sobre “estar em casa”, respondi: moro aqui ao lado da escola na Bamboo Village.
Ela – Mas sem parede? Pra dormir precisa de parede!
Eu – Aqui na escola não tem parede, eu sei, mas lá na Bamboo Village tem parede sim.
Ela – E quem mora com você?
Eu – Várias pessoas de vários lugares do mundo, igual na sua sala de aula, cada um veio de um país diferente.
Ela – Mas seus pais estão onde? – pergunta a pequena sem dar a mínima importância para “várias pessoas de vários lugares do mundo”. Na verdade ela queria ouvir como resposta “meus pais” e então precisava saber onde eles estavam.
Eu – Meus pais estão lá no Brasil.
Ela – Mas você não pode ficar aqui sem seus pais. Quem vai te proteger?
Fiquei alguns segundos em silêncio e então respondi que, diferente dela, eu já tinha crescido muito, tinha 30 anos, 6 vezes a idade dela e que a cada dia crescemos um pouco e vamos precisando cada vez menos dos nossos pais porque vamos aprendendo mais coisas para fazer sozinhos. Como eles mesmos dizem: “I can do this by myself”. Ela, ainda não satisfeita, me disse que se aparecesse um leão eu iria precisar do meu pai. Achei melhor silenciar-me porque na hora pensei: “de fato, se aparecer um leão… Literalmente, o bicho pega”.
Casa é o nome comum a todas as construções destinadas à moradia. Sentir-se em casa. Sentir a casa. Casa, residência, vivenda, colmeia, formigueiro, mar, selva, mansão, floresta, sobrado, cabana, casinha, casilha. Casa da tia, do amigo, casa dos avós. Amigo que faz a gente se sentir em casa, amigo que é casa, a casa do amigo que é nossa casa. O irmão que é casa. Os avós que são casa. Quando você está em casa, mas não é o dono da casa. A casa que vê a gente crescer. A casa que faz a gente crescer. A casa sem paredes, por vezes sem teto. A casa com a janela quebrada. A casa que acolhe… Sonho que é casa. Mudança de casa. O que vai e o que fica. A referência da casa. A referência de casa. A casa da criança…
A verdade é que criança não pode viajar muito tempo sem os pais porque se viaja sem os pais, viaja sem a casa. A casa da criança fica do lado de fora. Onde quer que ela esteja a casa da criança são os pais.
Mas o tempo é efêmero e a criança cresce. Então a primeira casa começa a se distanciar, começa a mudar, assim como a criança muda quando algumas mudas que o mundo vai plantando dentro da criança começam a brotar quando ela está longe da casa. Longe da primeira casa a gente começa a aprender sobre a vida pelo mundo e por si mesmo. E cria novos hábitos, o hábito de ser curioso diante dos estranhos, de procurar hábitos comuns e incomuns no diferente, de experimentar, de ouvir mais do que falar, de inspirar-se no outro e inspirar-se em si, de ter uma imaginação ambiciosa cheia de otimismo empoderado pela inocência de uma criança que um dia foi e ainda vive ali dentro, de não dar asas para os dias difíceis para a casa não desmoronar.
Por vezes a lâmpada queima, esquecemos a chave da porta, nos perdemos pelo caminho. O leão aparece. Porém, quando a primeira casa construiu paredes de aço, temos força para reorganizar as telhas que a tempestade por vezes tira do lugar. Junto com as telhas que se vão, nascem novas paixões, surgem novas razões e nasce um amor pela chuva que veio e também pela chuva que vem, pois depois da chuva a casa pode envergar, mas já aprendeu a se readaptar e fazer a sua pequena estrela brilhar.
A nova casa está do lado de dentro. A casa dentro de si.

Obrigada Green School, Bali, Indonésia, por abrigar a minha casa.

 

The house
from within

During the first week away from home the little monkeys were around me feeling curious like children. And during the first days a “Starling” sweetly asks me:
She – Ibu Bia, where is your home?
At that moment I was wondering what “being home” is so I answered: I live next to the school, at the Bamboo Village.
She – But without walls? In order to sleep we need a wall!
I – Here there are no walls, I know, but there, at the Bamboo Village, there are walls.
She – And who lives with you?
I – Several people from several places around the world, the same thing as in your classroom, everybody came from a different country.
And then she asks me where my parents are without worrying about “several people from several places around the world”. Actually what she really wanted to hear was “my parents” and so she needed to know where they are.
I – My parents are in Brazil.
She – But you cannot stay here without your parents. Who is going to protect you?
I stayed some seconds in silence and answered that, unlike her, I’ve already grown, I was 30 years old, 6 times her age. I also told her we grow up a little every day and we need our parents less and less because we learn to do the things by ourselves. As they say: “I can do this by myself”. She wasn’t pleased yet but told me that if a lion came up, I would need my father. I thought it would be better to be quiet, but I thought: “if a lion really comes up.. literally the animal will catch me… because I’ll be between a rock and a hard place”.
House, common name of constructions meant for living. Felling home. Feel the home itself. Home, residence, house, beehive, ant-hill, sea, jungle, mansion, forest, two-story house, cabin, hut. House of the aunt, friend, grandparents. A friend that makes us feel like home, a friend that is home, a friend’s house that is ours as well. A sibling who is our home. What goes and what stays. The house reference. The reference of the house. The child’s home.
The truth is that children cannot travel for a long time without their parents because if they do, they travel without home. The children’s home is outside. Parents are a child’s house – wherever he/she is.
But time is ephemeral and a child grows up. So the first house moves away and changes. The same thing happens when the child is growing from within when he/she is away from home. Away from the first home we start learning about life – all around the world and by oneself. And we create new habits, the habit of being curious towards a stranger, the habit of looking for common and uncommon features in another person, the habit of experimenting, of listening more than speaking, of inspiring yourself in the other and getting inspiration from yourself, of having an ambitious imagination full of empowered optimism by a child’s innocence that was one day inside of you and still lives, the habits of not giving wings to the hard days and not letting the house fall apart.
Sometimes the lamp burns, we forget the door keys, we lose the way. The lion shows up. But when the first house was built with steel walls, we have the power to reorganize the roof tiles that sometimes the storm takes away. Together with those tiles, new passions and new reasons emerge and there is a love for the rain that came and will come because after it the house can bend, but learned to readapt and makes its little star shine.
The new house is inside. The new house is within.

Terima kasih, Thank you Green School, Bali, Indonesia for sheltering my home.

 

 

 

Conecte-se